Soneto XIX – Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Todo em parte… Gregório de Matos

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

Não é um dos meus poetas favoritos, mas a primeira estrofe do poema é muito significativa para mim: eu sou A Parte, Deus é o Todo, eu sem ele não sou nada. Mas para por aí, porque Ele sem mim, ainda assim é tudo!

Legado

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.

Carlos Drummond de Andrade. Claro Enigma. Nova reunião.
v. I. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1983, p. 247.

Neste poema, Drummond se questiona sobre que herança literária ele deixará para seu país. Ele acredita que logo será esquecido e ridicularizado, visto as grandes mudanças que ocorriam desde então na história política e tecnológica do Brasil.

Da mesma forma que um poeta, tão aclamado e respeitado fez esta pergunta para si mesmo, eu, simples mortal acadêmica de Letras me pergunto: que legado deixarei para as gerações futuras? Pois se intenciono mudar as mentes, eis aí a oportunidade de influenciar jovens com meu talento.