Castro Alves – O laço de fita

Este era meu poema preferido quando tinha uns 10 anos. Lia-o sentada em frente a uma antiga estante que ficava em um corredor do quintal  da minha casa onde meu pai guardava seus livros belíssimos de capa dura e vermelha. Eu sentava e me deliciava por horas lendo coisas que nem compreendia. Este foi um dos poucos poemas que na época pude compreender parcialmente, sua sonoridade e a idéia do laço de fita que ora prende, ora enlaça, me fascinavam e fascinam até hoje. Acho que pode-se julgá-lo responsável por ter tentado Letras na faculdade.

Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores…
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh’alma se embate, se irrita…
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes…
Mas tu… tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios…
Beijava-te apenas…
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N’alcova onde a vela ciosa… crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu… fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova… formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c’roa…
Teu laço de fita


Soneto XIX – Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?