Apenas uma chance II

Ele acompanhou todos os procedimentos médicos para tentar reanimar aquele corpo inerte, suas mãos suavam frio e ele nem sabia o porquê. Entrou na ambulância e acompanhou a luta para salvar aquela vida. Sentia como se sua própria vida estivesse nas mãos daqueles homens de branco.

Dentro do seu coração, não parava de soar a voz “Ainda há uma chance”. Ele não havia virado para conferir o autor da frase, mas ainda sentia a mão em seus ombros, como se ela o confortasse…

Chegaram ao hospital. Os paramédicos saíram correndo com a maca em busca de uma solução para aquela vida tão jovem que se perdia devido as inúmeras hemorragias e fraturas internas. Sentiam como se a perdessem.

Na mesma hora, ele viu uma  pessoa que caminhava em direção à porta, era um conhecido de muitos anos, um amigo naquele momento. Se aproximou discretamente e disse um oi exatamente como uma criança assutada que busca reconhecer um estranho.

O amigo respondeu com um sorriso e um abraço largo, perguntando logo o que ele fazia ali. Ele contou toda sua trajetória e como se sentia em relação à vida daquela garota.

– Parece que minha vida está lá, no lugar dela. Quando a vi, lembrei da vontade que tinha de fazer exatamente o que ela fez. E… que estava indo para casa para fazer.

Contou sobre o vazio que inundava sua alma, da vontade de sumir, desaparecer sem deixar rastros. O amigo ouviu tudo atentamente.

– Sabe, acho que minha vida não muda mais, daqui para a frente é só a morte.

O amigo ia interrompê-lo quando um médico chegou e perguntou se ele acompanhava a garota que chegou há instantes. Ele afirmou e foi convidado a seguir o médico. Antes de ir, seu amigo segurou seu braço e lhe disse:

– Não importa o que você pode ver, mas sim o que não pode, mas tem certeza.

Ele foi, pronto para ouvir o veridito final, a notícia que mais temia, pois sentia sua alma diretamente ligada àquela vida.

Foi exatamente o que ouviu.

Seus olhos encheram de lágrimas, não sabia o porquê, sua vontade era de descer ao mais profundo da terra e gritar, chorar, expor tudo o que sentia agora. Então era mentira, não havia outra chance? Ela não poderia sobreviver assim como ele?

Porém, ficou imóvel, sem reação, mas sentiu uma mão em seu ombro dizendo:

– Confia. Ainda há uma chance.

Ele se virou, sentou-se e perguntou a si mesmo. Como poderia haver outra chance, a vida havia acabado. Como acreditar naquela voz que ele não entendia e nunca via o autor? Quem dizia aquelas loucuras? Por que ele acreditava nisto?

Enquanto meditava, ouviu um grito, vindo de dentro da Emergência. Uma enfermeira saiu correndo, gritando o nome do médico que falara com ele e que agora dava outra notícia ruim a uma família. Ele a ouviu atentamente ao pé do ouvido e fez uma cara, como quem não acreditassse no que acabara de ouvir.

-Ela acordou, a morta acordou!

O rapaz que ouviu a quela notícia se levantou, o médico veio em sua direção, incrédulo, repetindo o que a enfermeira dissera. Logo em seguida, foi verificar o ocorrido.

Na mesma hora os olhos que se envolviam em lágrimas, davam lugar a um sorriso discreto, sem refletir muito o brilho que acendia dentro dele. Parou na frente de um quarto onde havia uma tv ligada e ficou lá pensando nas palavras que ouvira ainda pouco.

De repente, ouviu a mesma voz na TV, as mesmas palavras que ouvira, se repetiam ali!

Ele entrou no quarto, sem se importar com quem estava lá, e ouviu o que dizia na TV.

– Deus te chama, ele quer te dar uma nova chance.

Seu coração se encheu de fôlego, sua alma perdeu o peso que sentia, a esperança que perdera acendeu como  uma chama dentro do seu peito. E decidiu que tinha que conhecer este Deus, queria uma nova chance.

A enfermeira se aproximou:

– Ei, rapaz! A moça quer falar com você.

Continua…

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